quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A crise da quase meia-idade

"Faz quase dois anos que eu tenho 35 anos. Juro que não faço de propósito. Quando perguntam a minha idade (sim, ainda há gente que faz isso!), eu respondo 35. Minutos depois eu percebo que não, que eu tenho quase 37, mas fico na minha. Afinal, o que são dois anos?"


Assim começa o primeiro artigo da piauiense-irlandesa-francesa Chrystianne Melo, a mais nova colunista do nosso clube! Suas crônicas são envolventes e tenho certeza que você vai se identificar.


Mas dois anos é muito tempo. Minha vida mudou muito desde 2014 : fiquei grávida. E em 2015 tive meu bebe.  Não sou a mesma que era aos 35 anos: mudei psicologicamente e fisicamente (aqueles 3 quilos extras da gravidez que ainda não foram embora). Agora, à beira dos 37 anos e mais próxima dos 40 que dos 30, começo a encher minha cabeça de questões existenciais. Questões que vêm e voltam frequentemente, mas cada vez mais fortes.

Sempre adorei ler e escrever. Era uma das melhores alunas em português e redação. Passava horas no meu quarto, com meus livros e meus cadernos. Escrevia contos, histórias de amor, poemas... Fiquei entre os três primeiros colocados em um concurso de poesia na minha escola. Tirei até a nota máxima
em redação quando fiz vestibular. “Você nasceu para ser jornalista” - me diziam. E assim, eu decidi muito cedo que iria passar o resto da vida escrevendo, convidando as pessoas a refletirem, analisando criticamente o mundo… eu iria ser jornalista.

Infelizmente ou felizmente, as coisas não foram tão simples assim. Acabei fazendo vestibular para Ciências Sociais e diferentes eventos da minha vida fizeram que hoje eu seja formada em outra coisa e trabalhe com números, analisando dados em planilhas o dia todo. Queria ser jornalista.
Como vim parar aqui? Claro que conheço exatamente a resposta. Não foi por acaso.

Passei cinco anos fazendo tudo para chegar onde cheguei. Adoro meu emprego, minha empresa e (alguns) dos meus colegas. Mas a voz continua: "você, alma sensível, que adora ler, escrever, analisar o mundo… Por que continua se escondendo?" Ainda mais que hoje “trabalhar com o que gosta” virou moda. Existem vários discursos inspiracionais pela internet. Uma vez eu ouvi alguém dizer “faça o que você ama e nunca mais terá que trabalhar”. O grande paradoxo é que eu faço o que eu amo.

Com o passar dos anos, achei um novo amor, que me inspira. Tenho muito orgulho do meu trabalho e da minha empresa. Não vejo as horas passarem quando estou no escritório. Me sinto privilegiada por gostar do meu emprego. E, posso dizer, sem falsa modéstia, que o meu emprego gosta de mim.

Então, por que essa inquietude interior? Essa tristeza ao assistir a um documentário bem feito ou a um artigo bem escrito? Porque, como todos sabemos, o primeiro amor a gente nunca esquece. E o meu primeiro amor é a escrita, não as fórmulas do Excel.

Quando somos crianças ou adolescentes, a pergunta do que você quer ser quando crescer soa tão promissora! Você sonha em ser isso ou aquilo, visualiza uma vida ideal, que vai passar, ser aceito na universidade de primeira e se tornar o melhor profissional da sua área. Adultos, caímos na realidade. E ninguém mais fala de sonho, não temos mais tempo. Falamos de planos e projetos. Já crescemos, então o que somos?

Recentemente, almocei com um grande amigo que não via há mais de 15 anos. Ele me contou que passou por essa crise, que os sonhos, as aspirações da nossa época da faculdade, voltaram e quase o levaram à depressão porque ele via os anos avançarem e não estava fazendo o que queria. Expliquei que estou sentindo a mesma coisa, que essa voz interior está falando cada vez mais alto, que logo vai começar a gritar…   “E por que não resolve isso?” – perguntou. E eu me vi escrevendo, passando o dia na frente do computador, escrevendo sem parar.

Minutos depois, meu lado prático me joga de volta na realidade: voltar à universidade agora não é possível. Talvez em alguns anos. Arrumar um emprego nessa área (aliás em todas as áreas) sem diploma hoje em dia é complicado, etc, etc. Se eu
procurar, vou encontrar mil e uma razões para continuar minha vida como ela está. Mas a verdade é que são apenas desculpas. Não preciso de faculdade para escrever, não preciso ser jornalista para escrever, não preciso de um emprego.

Hoje em dia está muito mais fácil publicar um texto, criar um blog. Eu só preciso de alguns minutos, de uma caneta, de um papel e começar a preencher as linhas como eu fazia quando era jovem e não tinha medo de nada. Então aqui estou, deixando essa voz interior falar, ela que ficou calada durante tantos anos, enquanto eu a ignorava. Espero que me perdoe pelo tempo perdido e que tenha coisas interessantes para contar. E você? É a pessoa que queria ser quando crescesse? Se não, o que está esperando?

Chrys Mel

7 comentários:

  1. Excelente texto! Daquele tipo que você pode ler sem se cansar e tal. Estou muito feliz por você Chrys, e já estou aguardando o próximo!

    ResponderExcluir
  2. Texto excelente! Sutilmente inquietante, mexe com estigmas contemporâneos e convida à reformular conceitos!!! Tocado

    ResponderExcluir
  3. Amei querida e parabéns por ter tomado essa decisão e estar aqui. Eu estou exatamente (e até mais) onde queria estar quando crescesse, porém como também não sou a mesma, outros desejos surgiram e sonhar nunca acaba. Bjs!

    ResponderExcluir
  4. Amei querida e parabéns por ter tomado essa decisão e estar aqui. Eu estou exatamente (e até mais) onde queria estar quando crescesse, porém como também não sou a mesma, outros desejos surgiram e sonhar nunca acaba. Bjs!

    ResponderExcluir
  5. Minha querida amiga de longas datas, datas essas que remetem ao tempo que vc escrevia seus contos e poesias em seu quarto na casa da Jovita Feitosa e sonhava ser jornalista em Londres. Fico muito feliz a cada conquista sua, mesmo de longe(fisicamente falando), mas com o coração grudado por um amor e admiração de amiga que nunca se acaba nem se apaga. Bom demais ler seu reencontro com a escrita, e por favor, não pare nunca mais.

    ResponderExcluir
  6. Minha querida amiga de longas datas, datas essas que remetem ao tempo que vc escrevia seus contos e poesias em seu quarto na casa da Jovita Feitosa e sonhava ser jornalista em Londres. Fico muito feliz a cada conquista sua, mesmo de longe(fisicamente falando), mas com o coração grudado por um amor e admiração de amiga que nunca se acaba nem se apaga. Bom demais ler seu reencontro com a escrita, e por favor, não pare nunca mais.

    ResponderExcluir
  7. "Não preciso de faculdade para escrever, não preciso ser jornalista para escrever, não preciso de um emprego". Isso!!!! Continue a escrever. Grandes jornalistas nunca fizeram faculdade, e não precisa mesmo. Escreva com o coração, com a alma, divirta-se, sofra, ria, chore, escreva :)))

    ResponderExcluir